A Clínica

Depoimento de Marcello Blaya Perez

Recém-chegado dos Estados Unidos precisava de um lugar para meus pacientes psicóticos. O São Pedro, fora de questão, um grande depósito de doentes crônicos, hoje felizmente reformulado. O Sanatório São José, um serviço particular fechado onde apenas dois ou três colegas podiam internar. Sobrava o Hospital Espírita, onde o Dr. Pedro Rosa, diretor clínico, permitiu a internação. Eram poucos, em média dois ou três, o que possibilitava que todas as manhãs, quando ia ao que na época era o fim de Teresópolis e da cidade, tivesse entrevistas com pacientes e familiares, de pelo menos umahora de duração. Quando terminava, tinha a satisfação de vê-los tranquilos. Mas ao chegar na manhã seguinte as notas de enfermagem me informavam que haviam se agitado e, as vezes, agredido. Uma tarde cancelei os compromissos do consultório e fui ao Hospital Espírita. Para minha surpresa os pacientes estavam recebendo passes. Indignado, fui ao Dr. Rosa reclamar e ele respondeu, tranquilamente como era seu jeito: “Marcelo, acho que não reparaste que este é um Hospital Espírita”.

Novembro de 1959. Naquele verão, Rosita e eu procuramos no Correio do Povo, então um jornal tamanho grande cheio dos anúncios econômicos, hoje concentrados na Zero Hora: procuramos e achamos uma casa grande para alugar, onde começou a Clínica Pinel S.A., com doze leitos e hospital dia. Era na esquina da Av. João Pessoa com a Lopo Gonçalves; ainda está lá. A inauguração em 28 de março de 1960, para livrar-me dos “benefícios” da assistência religiosa para os pacientes, me reservava uma surpresa: o primeiro médico que veio para a residência, um espírita convicto, estava dando passes nos pacientes da Pinel. Depois dessa surpresa não tivemos o problema da mistura de religião com tratamento.  

A Clínica Pinel abriu vários caminhos importantes na Psiquiatria brasileira. Em março de 1960 iniciamos a primeira residência no Brasil, para médicos, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e terapeutas ocupacionais. A residência foi um programa de ensino pós-graduado cuja repercussão se pode avaliar pelo afluxo de candidatos de todos os estados brasileiros e de alguns países que hoje compõem o Mercosul. Em 1961 fui aprovado num concurso para a livre docência e graças a minha condição de professor, a residência em Psiquiatria para a UFRGS. Posteriormente a formação de enfermeiros psiquiátricos também foi feita através da escola de enfermagem da UFRGS. O programa de comunidade terapêutica foi uma inovação no tratamento de psicóticos no Brasil. A criação de uma comunidade clínica com regras e práticas que dessem ao psicótico/família condições para a ressocialização, combina com prática grupais ocupacionais e recreacionais, possibilitaram um bom índice de recuperação. Os técnicos que trabalharam na comunidade terapêutica, por sua vez, aprenderam convivendo com os pacientes, familiares e colegas, o que as teorias dos livros ensinavam.

A erudição da bibliografia ficou mais verdadeira com a sabedoria das vivências, possibilitando ter/ser o conhecimento. A comunidade terapêutica permitia que o tempo de internação, melhor aproveitado, fosse uma preparação para usar a outra novidade introduzida pela Clínica: o hospital-dia ou hospital-noite. Tão logo o psicótico e sua família aceitavam o risco de viver na comunidade, estes programas permitiam que eles passassem a noite e fim de semana  no seu meio familiar, permanecendo na comunidade terapêutica nos horários diurnos, como os alunos de uma escola como eles de fato eram. Para outros, porém, cujo contato familiar era conflitivo, a alternativa era retomarem as suas tarefas profissionais e utilizar a  comunidade a noite e nos fins de semana. Este modelo assistencial, trazido da Menninger, foi copiado em todo o Brasil.

Os pacientes que já chegavam à Clínica com uma história longa de cronicidade ou aqueles cuja a evolução não permitia que retornassem ao seu ambiente familiar ou de trabalho, eram atendidos na Pensão Protegida, igualmente pioneira no Brasil para esse arranjo que liberava os dispendiosos leitos hospitalares e proporcionava um meio de campo entre hospital e comunidade, possibilitando a resocialização dos crônicos. Em 1964, a Clínica Pinel S.A.se transformou na Associação Encarnación Blaya, sociedade civil sem fins lucrativos mantenedora da Clínica e de outras instituições criadas pela Associação. Uma escolinha terapêutica possibilitou treinar técnicos no tratamento da criança e do adolescente psicóticos, em regime de comunidade terapêutica.

Como prestávamos serviços aos Institutos de Aposentadorias e Pensões, e que depois se transformou em INSS e SUS, tínhamos verificado que o sistema de atendimento pré e pós hospitalar era deficiente. A criação de uma unidade de saúde Ulisses Pernambucano, em Cachoeirinha, ofereceu aquela população um atendimento ambulatorial de qualidade que reduziu as hospitalizações e permitiu uma atenção ao egresso da Clínica possibilitando uma alta em tempo mais curto. A Clínica como acima descrita durou 20 anos. Os melhores profissionais que haviam feito sua formação ficaram e desempenhara-se como professores, supervisores, chefes de serviços e terapeutas: entre eles os Médicos: David E. Zimerman, Flavio Rotta Correa, Milton Shansis (falecido) e Carlos Gary Faria: a assistente social Isabel Reckziegel, e os enfermeiros Ruth Myllius, Jorge Alberto Rodrigues e Baltazar Lapis, os dois últimos após anos como atendentes psiquiátricos na Clínica.